ARTE POSTAL ARTE
Fabiane Pianowski
O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isto muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do mundo.
(Alberto Caiero)
introdução
Foram os integrantes do grupo Fluxus os impulsores da criação
da arte postal. Sendo considerado o ano de 1962 como o marco formal de seu
surgimento, quando o artista neodadaísta americano Ray Johnson (1927-1995)
criou sua “New York Correspondance School of Art”. Porém, anteriormente
a esta oficialização, muitos artistas já se serviam
da via postal para elaborar trabalhos com fins estéticos, como collages
e utilização de diferentes técnicas e materiais, bem
como para trocar criações e experiências artísticas,
estabelecendo diálogos sem fronteiras. Deste modo, as experiências
dos futuristas, dadaístas, surrealistas, artistas pop, neodadaístas,
neo-realistas e conceitualistas estão entre os antecedentes históricos
desta forma de comunicação artística. Artistas postais
ocasionais, segundo Fernandéz (1997), foram celebridades como Pablo
Picasso (1881-1973), Henri Matisse (1869-1954), Marcel Duchamp (1887-1968),
Kurt Schwitters (1887-1948), Max Ernst (1891– 976) e Francis Picabia (1879-1953).
A única diferença notável que Fernandéz (1997)
considera no estado das coisas antes e depois da iniciativa de Ray Johnson
é de que até a normalização do novo veículo
de expressão, o correio era empregado de forma esporádica por
artistas plásticos.
Hoje, porém, a arte postal conta não só com artistas
plásticos, mas também com poetas, músicos, arquitetos,
fotógrafos - renomados ou anônimos -, que encontraram neste
meio uma maneira particular e especial de expressão.
Correio e cartão-postal: fatos históricos
A necessidade de comunicação do homem criou o correio, a data
exata deste fato é desconhecida (Ibirico, 2001a), sabe-se, porém,
que a arte de escrever cartas tem uma história de mais de 4000 anos,
quando os sumérios escreveram as primeiras correspondências
(Veras, 2001). O correio se desenvolveu a partir da invenção
do papel que era mais leve e de fácil manejo (Ibirico, 2001b). A popularização
deste serviço, no entanto, se deu no século XV, quando se permitiu
o transporte de envios privados. O primeiro monopólio de correios,
“Tour y Tassis”, surgiu em 1520, e até 1867 controlava todos os correios
europeus, apesar de sofrer intervenção do Estado.
Após a dissolução deste monopólio, em 1869, o
Barão Adolfo Maly, diretor dos correios austríacos, assinou
um decreto em que se admitia a circulação de cartões-postais
de franquia reduzida (Mail, 2001). Sendo que somente em 1892 os cartões-postais
passaram a ser impressos como os conhecemos atualmente e, desde então,
numerosos artistas do início do século reproduziram suas obras
neste formato, do mesmo modo que abundaram os postais de paisagens, flora
e fauna, fotografias de artistas famosos, de parentes e amigos, o postal
satírico e o político, assim como os eróticos que aguçaram
a libido de uma época. “Durante este século o cartão-postal
se converteu no meio de comunicação mais utilizado para a transmissão
de mensagens curtas pelo correio” (Mail, 2001).
futurismo
Foi, através de um manifesto literário feito, em 1909, por
Filippo Tomaso Marinetti (1876-1944), que este movimento, autodenominando-se,
nasceu. Como uma ode ao moderno, o futurismo surgiu opondo-se à tradição,
aos valores e às instituições consagradas pelo tempo.
Sua razão de ser era a velocidade, a energia mecânica, a tecnologia
e a metrópole. Como o primeiro movimento de vanguarda, entendendo-se
vanguarda como um “movimento que investe em interesse ideológico na
arte, preparando e anunciando deliberadamente uma subversão radical
da cultura e até dos costumes sociais, negando em bloco todo o passado
e substituindo a pesquisa metódica por uma ousada experimentação
na ordem estilística e técnica” (Argan, 1998:310), o futurismo
instaurou um novo ritmo nas artes. Abriu as portas para a intelectualização
da arte, em que as teorias e as idéias passaram a ter maior importância
que o próprio objeto artístico. A partir dele, a idéia
passou a se antepor ao estilo.
Segundo Vittorio Bacelli (2001), os artistas futuristas foram os primeiros
a usar o meio postal sob uma ótica estetizante. Giacomo Balla (1871-1958)
realizou pinturas em cartões postais. Ivo Pannagi (1901-1981), em
1920 criou as “colagens postais” que consistiam em combinar a direção
do destinatário com fotografias, elementos gráficos, selos,
papéis policromados, etc., que depois os correios completavam pondo
ao azar selos e etiquetas oficiais. Deste modo, praticava-se a arte postal
durante o futurismo mesmo que de forma inconsciente, porque eles não
pensavam em fazê-la como algo específico ou, pelo menos, com
as características a que hoje atribuímos a tal prática.
dadaísmo
Contra os ideais burgueses, o Dadaísmo se fez “antiarte”, destruindo-se
para sobreviver. A destruição é também criação
(Bakunin citado por Corredor-Matheos e Miracle, 1979:98). O próprio
nome “dada” nasceu da contestação, uma das versões do
surgimento do nome é que o mesmo se deu com a ajuda do acaso: palavra
surgida no folhear de um dicionário de alemão-francês,
que se refere ao primeiro som emitido por uma criança. O movimento
surgiu, em 1916, em um “centro de entretenimento” denominado Cabaré
Voltaire, situado em Zurique, onde artistas e poetas manifestavam-se
sob o incentivo do filósofo e poeta Hugo Ball, seu fundador. Porém,
foi Tristan Tzara (1896-1963), ao criar, organizar, editar e distribuir a
revista Dada, que deu continuidade e ênfase ao movimento.
O descontentamento com a situação em que viviam fez do Dadaísmo
muito mais um modo de vida, uma atitude mental, do que um movimento artístico,
pois “ridicularizava a confiança irrestrita do Ocidente na razão,
e denunciava a divisão e a especialização mediante as
quais se pretendia neutralizar as complexidades da vida moderna e torná-la
mais segura” (Bradley, 1999: 12). Além disso, a criatividade assumia
um outro papel porque a ação passou a ter tanta importância
quanto o produto que dela resultasse.
“Foi um movimento essencialmente internacional” (Ades, 1991:82). Muito provavelmente
por este caráter o meio postal, em especial o cartão-postal
tenha sido utilizado amplamente pelos dadaístas que, como os futuristas,
segundo Merz Mail (2001), trocavam correspondências com fins artísticos,
sendo Duchamp e Schwitters os que possuem registros mais evidentes desta
prática.
marcel duchamp (Blainville, 1887 – Newilly,
1968)
É Duchamp, certamente, o precedente mais importante da arte postal,
porque foi ele o instaurador de um novo pensar/agir sobre arte. Como afirma
Argan (1998:661), “talvez a obra de Duchamp alquímica por excelência
seja toda a sua vida, que serve de modelo para todas as novas vanguardas
do segundo pós-guerra, do new-dadá às experiências
de recuperação do corpo como expressão artística
na intenção de fazer coincidir arte e vida”. Duchamp acreditava
na idéia da não-superioridade do artista como criador e, ao
colocar a escolha como o elemento determinante da intervenção
pessoal na criação artística, permitiu a qualquer pessoa
a produção artística. “E depois temos aquele movimento
artístico de um só homem, Marcel Duchamp – para mim, um movimento
verdadeiramente moderno, porque subentende que cada artista pode fazer o
que pensa que deve fazer – um movimento para cada pessoa e aberto a todos”
(Willem de Kooning, 1951 citado por Smith, 1980:182). Sob esta postura, Duchamp
criou os ready mades, objetos artísticos feitos de objetos
cotidianos que, a partir da escolha do artista, passavam a ter “a exclusiva
função de desorientar o observador” (Ades, 1991:87).
Não é só pelo fato da arte Dadá estar ao alcance
de qualquer um para produzi-la, que este movimento pode ser considerado também
um precursor da arte postal. Mas, também e principalmente, pela produção
de 14 postais – Rendez-vous dimanche 6 frevier 1916 á 1h ¾
de 1’m aprés-midi , que Duchamp enviou a seus mecenas Mr. e Mrs.
Walter C. Arenberg – que, segundo Merz Mail (2001), podem marcar um dos inícios
no mundo da arte que se utiliza do formato e das características do
cartão-postal. Este meio foi utilizado amplamente pelos dadaístas,
sendo Duchamp seu precursor dentro do movimento.
kurt schwitters (Hanôver, 1889 – Ambleside,
1948)
Este artista que, como afirma Gombrich (1993:476), “se posicionava contra
a Arte com A maiúsculo”, foi um excêntrico de seu tempo. Sua
atitude de recusa aos materiais tradicionais em favor de materiais “menos
nobres”, como bilhetes usados de ônibus, selos, rolhas, trapos, botões,
pedaços de cartas, recortes de jornais, o aproximava da prática
dadaísta. Porém, ele não aceitava a negação
da artisticidade feita pelos dadaístas e por isto não foi acolhido
no Clube Dadá, criando, portanto, seu próprio Dadaísmo.
Assim, criou o Merz, palavra que, segundo Schwitters (citado por Chipp, 1996:389),
adquiria significado na medida em que era utilizada por ele, além
disso, Corredor-Matheos e Miracle (1981) afirmam que ela é, muito
provavelmente, resultado da desconstrução de Kommerz,
para indicar a impossibilidade comercial de sua obra. Esta referência
foi utilizada, posteriormente, pela arte postal: a não-comercialização.
Para ele, segundo Argan
(1998:359), “a obra é apenas o lugar onde terminam e se incrustam
as coisas mais heterogêneas”. Sob este enfoque constrói suas
collages e assemblages. Schwitters recolhe tudo o que não
serve mais para a sociedade de consumo e junta, sem lógica aparente,
pedaços de diferentes realidades já vivenciadas, reconstruindo
a intrincada trama da existência. Assim, constrói seu trabalho
mais importante, o Mezbau, escultura-arquitetura de gesso, que escondia
nas suas cavidades lembranças de amigos. Ele também manipula
e interfere em 11 postais editados por Paul Steegmann, que continham obras
suas destruídas pela guerra no intuito de preservá-las. Além
desta evidente atitude de artista postal, Schwitters é ainda o inspirador
de artistas postais contemporâneos que se utilizam de “retalhos da
existência” para compor suas obras postais e se comunicar com o mundo
afetuosamente.
surrealismo
Sua origem se mescla ao Dadaísmo, até atingir sua autonomia
em 1924, quando André Breton (1896-1966) escreve o primeiro Manifesto
Surrealista. Ao contrário do Dadaísmo, este movimento “aceita
a existência da arte e recupera a realidade figurada”(Corredor-Matheos
e Miracle, 1979:109) deste modo, como afirma Ades (1991:91), “devolve ao
artista a sua razão de ser sem impor, ao mesmo tempo, um novo conjunto
de regras estéticas”. Sendo também um movimento de contestação,
os surrealistas opunham-se à sociedade burguesa, pois acreditavam
que esta tinha rompido com o caminho interior e só valorizava o exterior,
eles pretendiam reatar estes mundos. Breton, em 1928, ao definir os objetivos
do movimento deixa claro esta intenção: “tudo faz crer que
existe um certo ponto do espírito em que a vida e a morte, o real
e o imaginário, o passado e o futuro, o comunicável e o incomunicável,
o alto e o baixo, deixam de ser aprendidos contraditoriamente” (citado por
Corredor-Matheos e Miracle, 1979: 103). Deste modo, suas ferramentas de trabalho
eram o automatismo e o registro dos sonhos, sem preocupação
moral e estética e na ausência de todo controle exercido pela
razão.
Este movimento veio a exercer profunda influência no modo de fazer
arte de seus sucessores. Segundo Bradley (1999: 73), “sua ênfase na
coletividade e na ruptura da distinção entre o privado e o
público, o artista e o espectador, voltaria à tona em outros
modos de fazer arte”. Neste sentido, tem-se o movimento Fluxus, que ao aderir
a estes ideais, criou a arte postal. Nesta, como no Surrealismo, a colaboração
e o coletivismo têm uma importância crucial, mantendo-se um intercâmbio
permanente entre o poético e o pictórico. Bem como o rompimento
das hierarquias do meio artístico, que possibilita tanto a artistas
renomados como a criadores anônimos o espaço de expressão
artística.
novo realismo
Mesmo após os E.U.A. terem se tornado o centro artístico do
mundo, houve uma série de movimentos artísticos, deslocados
desse eixo, que criticavam a cultura consumista. Entre eles estão
os neo-realistas, um grupo parisiense formado em meados de 1950 por artistas
que pretendiam ampliar as idéia e atos de Duchamp. Alguns de seus
componentes foram Yves Klein (1928-1962), Arman Armand (1928), Jean Tinguely
(1925-1991), Daniel Spoerri (1930) e Raymond Hains (1926). Estes artistas
fizeram importantes contribuições para a arte contemporânea,
apesar de sua curta duração enquanto movimento formal. Utilizavam-se
de materiais comuns para produzir arte e com isto reviveram a tendência
iniciada pelos dadaístas. “O Nouveau Realism [...] foi a concepção
de uma arte feita de elementos reais, isto é, de materiais tomados
diretamente do mundo e não pictoricamente” (Friedman, 1995). Suas
atitudes foram provocativas, mas não muito audaciosas. Os temas e
idéias que os motivavam ressurgiram na arte pop no fim da década
de 50 e início de 60, só com um caráter mais emblemático.
Em relação à arte postal, alguns de seus membros tiveram
atitudes precursoras no movimento, criando obras de referência. Armand
utilizou carimbos em uma série de trabalhos iniciada em 1954, denominada
Cachets. Klein iniciou o movimento de selos de artista com seu Blue
Stamp (selo azul). Spoerri criou obras e projetos postais, tendo envolvido-se
intensamente com a arte postal durante as suas três primeiras décadas
de existência.
arte pop
As práticas que configuravam a Arte Pop eram muito próximas
das práticas dadaístas, residindo a diferença na recuperação
da beleza estética, antes desprezada. Por isto, inicialmente uma de
suas denominações foi neodadaísmo. O ano marcante foi
1955, em Nova York, com o surgimento de Robert Rauschenberg (1925) e de Jasper
Johns (1930), considerados seus precursores.
A Arte Pop baseava-se na cultura de massa, “manifestando o desconforto do
indivíduo na uniformidade da sociedade de consumo” (Argan, 1998:575)
e por isto seu maior impacto e suas raízes mais profundas foram firmadas
nos EUA. Muito mais um acontecimento do que um movimento artístico,
a Arte Pop configura-se como um estilo de vida, porém seus produtos
artísticos são carentes de estilo, pois ela é hostil
a categorias. Como afirma Lucie-Smith (1991:165), “a principal atividade
do artista pop, sua justificativa, consiste menos em produzir obras de arte
do que encontrar um sentido, um nexo para o meio à sua volta, aceitar
a lógica de tudo o que o cerca em tudo o que ele próprio faz.
A descoberta dessa lógica, sua forma e direção tornam-se
a principal tarefa do artista”. Neste sentido, o artista postal e o artista
pop se encontram, pois a lógica de ambos é a busca de sentido
em suas ações e o questionamento do mundo a sua volta, seu
envolvimento artístico é seu modo de vida; porém, enquanto
o artista pop utiliza-se dos meios de comunicação massivos
para criar obras descartáveis “da massa para a massa”, o artista postal,
na contramão, busca uma comunicação “de indivíduo
para indivíduo”.
arte conceitual
Pela sua enorme abrangência no que se refere à utilização
de materiais e técnicas (propostas escritas, fotografias, documentos,
mapas, filmes, vídeos, performances, etc.) a arte conceitual não
tem uma definição fácil. Somado a isto está o
fato dela ter se internacionalizado e expandido rapidamente, o que impossibilita
ainda determinar com exatidão o seu criador ou inventor. Sabe-se,
porém, que surgiu em meados da década de 60, perdurando até
1974-75, sendo os artistas mencionados com maior freqüência Joseph
Kosuth (1945), Robert Barry (1936), Lawrence Weiner (1940) e Douglas Huebler
(1924-1997).
Bebendo na fonte Duchampiana, de que qualquer pessoa podia produzir arte
- destituindo da obra de arte sua “aura” - e valorizando a idéia acima
de tudo, a arte conceitual, estimulada pelo seu contexto histórico
em que pululavam os movimentos de contracultura, “implicava reconsiderar
o objetivo da arte - ou seja, implicava levantar questões com respeito
aos ”produtos” da atividade artística e ao “propósito” da arte
em relação a mais ampla história da modernidade” (Wood,
2002:29). Neste sentido, a arte conceitual foi uma questionadora da posição
elitista da arte e do artista. Segundo Smith (1980:185), “a arte conceitual
foi a que adotou a postura mais radical e a que, de fato, permanece hoje
mais vívida na memória e na influência”.
“[...]
o correio, telegramas... tudo se converteu em novos veículos e, ocasionalmente,
em novos tópicos de expressão, oferecendo inúmeros caminhos
para os artistas conceituais comunicarem sua arte ao mundo e, com a mesma
freqüência, incluírem esse mundo em sua arte” (Smith,1980:185).
Devido a esta extrema
diversidade e liberdade a arte conceitual permitiu que a arte postal emergisse
como tal, afinal ambas compartilhavam a idéia de um movimento “aberto
a todos”.
fluxus
Dentro do contexto de extrema diversidade da arte conceitual e colocando-se
contra o imperialismo ocidental através de aguçada crítica
e de humor extravagante, George Maciunas (1931-1978), em1963, definiu Fluxus
em um manifesto em que ressaltava as implicações sócio-políticas
deste grupo: “Livrem o mundo da doença burguesa, da cultura intelectual,
profissional e comercializada. Livrem o mundo da arte morta, da imitação,
da arte artificial, da arte abstrata. Promovam uma arte viva, uma antiarte,
uma realidade não artística, para ser compreendida por todos,
não apenas pelos críticos, diletantes e profissionais...Aproximem
e amalgamem os revolucionários culturais, sociais e políticos
em uma frente unida de ação” (citado por Wood, 2002:23). A
idéia central era, segundo Hovdenakk (2002), o grupo, não no
sentido tradicional onde o grupo trabalha junto de acordo com estruturas
ideologicamente estritas, mas, ao contrário, aberto à vida,
à diversidade, ou seja, a todas as culturas e formas de pensamento.
Como afirma Dick Higgins, “Fluxus não é um momento na história,
ou um movimento de arte. Fluxus é uma maneira de fazer coisas, uma
tradição e uma maneira de vida e de morte” (citado por
Kitselman-Ames, 2002).
A cena inicial da arte de Fluxus incluiu, entre outros, Ben Vautier
(1935), George Brecht (1926), John Cage (1912-1992), Alison Knowles (1933),
Yoko Ono (1933), Joseph Beuys (1921-1986), Ken Friedman (1939). Estes artistas
estavam freqüentemente participando em happenings, em events
e activites, fazendo coisas fora de seu contexto normal. Hoje, se institucionalizou
e, conforme Wood (2002), sua ação revolucionária se
perdeu. Porém, não se pode esquecer a enorme influência
que exerceu na arte conceitual, tendo um papel seminal na vídeo-arte,
nos livros de artista, nos happenings e na arte postal.
ray johnson (Detroit, 1927 – New York, 1995)
Foram as atividades do americano Raymond Edward Johnson que deram origem
à arte postal que, como afirma Clive Phillpot (1995), até então
era incidental. Foi somente a partir da criação da New York
Correspondance School por Ray Johnson que esta maneira de produzir arte
tomou corpo. Além disso, Johnson foi também o responsável
pelos primeiros happenings, os quais chamou de nothings. A
sua própria morte foi um nothing, pois segundo amigos estava trabalhando
no seu “evento final”, assim sua morte (suicídio) é preenchida
de mistério, intensificando o seu mito. “Seu trabalho é sobre
o amor como referências recíprocas, uma emoção
construída das referências às referências, e seu
trabalho é sobre a morte enquanto o mais abstrato das relações,
nele a vida é definida como correspondências entre o amor e
a morte” (Wilson, 1977).
Apesar do caráter incomum e totalmente pessoal de sua arte e de seus
métodos, bem como de seu papel seminal na arte postal, Ray Johnson
pode também ser associado à arte conceitual, às atividades
do grupo Fluxus e a outras manifestações, apesar de manter-se
sempre como um artista independente. “Foi atraído a tudo que fosse
definido pelo acaso e pelo imprevisível. Foi repulsado pelo final,
pelo conclusivo, pelo localizado” (Beija-pál, 2002).Seus principais
trabalhos são collages intricadas e discursivas “repletas de
associações e indícios” (Alloway, 1977), as quais chamou
moticos. Para ele original e cópia tinham o mesmo valor e assim eram
seus envios, pois acreditava que ambos diriam a mesma história. Deste
modo, por sua ampla participação na rede postal e pela utilização
de cópias é difícil encontrar um catálogo de
arte postal que não mencione seu nome. Sendo Johnson, como afirmou
Grace Glueck (citada por Bourdon, 1995), “o artista desconhecido mais famoso
do mundo”.
the new york correspondance school
Até 1962-63 não havia nenhuma menção específica
para arte correio, foi Edward Plunkett (Plunkett, 1977) que introduziu correspondence
à denominação dada a New York School, escola
referente à pintura abstrata, criando um jogo de palavras entre
a escola de arte vigente e as escolas por correspondência comuns na
época. Porém, Ray Johnson preferiu soletrar correspondance
(“dance”, em português, dançar/dança), finalmente batizando
o “movimento”, salientando as relações entrelaçadas
que ele havia criado através do correio. A criação da
New York Correspondance School, em 1962-63, foi o trabalho de maior desempenho
de Ray Johnson, a partir dela criou-se a prática, agora padrão,
da arte postal de que todo material recebido fosse exibido e que a todos
os participantes fosse emitido a documentação da mostra, da
distribuição livre da arte e da informação, definindo
a comunicação interpessoal como a essência desta arte
e com isso questionando eficazmente muitas das normas da arte contemporânea.
Esta escola nunca reivindicou ser uma inovação, porém
as atividades nela iniciadas se mantêm há mais de 40 anos. Foi
através da New York Correspondance School e da figura de Ray
Johnson que diferentes nacionalidades se uniram via postal. Ray Johnson não
restringia sua correspondência aos amigos, bem como não eram
envios limitados a experiências pessoais como os demais artistas da
época. Ele trocava e incentivava a troca de material artístico
entre as mais diferentes pessoas, e quem trocasse correspondência com
a New York Correspondance School rapidamente tinha sua lista de envios
expandida. “Você deve participar para compreender que o NYCS não
tem nenhuma história, somente tem o presente e realmente não
importa como você a chama ou soletra: deixe apenas o correspondance
começar, e escolha seu próprio sócio” (Johnson citado
por Baroni, 1995).
motivos da criação da arte postal
Existem diversos motivos que levaram a criação da arte postal,
entre eles estão, segundo Guy Bleus (2001), o descontentamento com
a política de arte e com as galerias “importantes”, a necessidade
de ampliar a função artística do criador, tomando parte
em projetos internacionais e publicações e pela participação
em exposições sem jurado e sem muitas concessões. Para
o artista postal, a arte é um produto de comunicação
e não uma mercadoria. Deste modo, criou sua própria linguagem,
antepondo-se aos meios de comunicação de massa. Caracteriza-se
por ser uma maneira rápida e ampla de difusão artística.
A facilidade de sua produção, armazenamento e consumo faz da
arte postal uma manifestação artística doméstica
por excelência e, assim, ao alcance de qualquer um.
As regras que, de alguma forma, delimitam a arte postal foram sendo criadas
no transcurso de seu desenvolvimento, sabe-se, então, que: as obras
não são comercializadas; não existem jurados de admissão;
não há devolução de obras; não há
censura; há total liberdade de meios e suportes, incluindo a liberdade
de meio e formas e de correntes expressivas e de gêneros. Todas as
obras recebidas são expostas, e todos os participantes recebem a documentação
respectiva gratuitamente. Na verdade, como afirma Bleus (op.cit.),
“a arte postal é um intercâmbio internacional de arte, idéias
e amizade, um instrumento humano de comunicação”. Pode ser
considerada como uma tendência não-competitiva: não há
prêmios; igualadora: consagrados artistas postais expõem junto
com anônimos; anticonsumista: não-vendável. Caracteriza-se,
portanto, como uma forma alternativa de arte, sem submissão ao “mercado
da arte” e sem fronteiras.
rede de artistas
O conceito da Eternal Network, criado em 1963 pelo artista integrante do
grupo Fluxus Robert Filliou (1926-1987), foi e é o inspirador da continuidade
da rede de arte postal. “Define-se como um modelo utópico da comunicação
em perpétua expansão, valendo-se de todas as formas e meios
expressivos” (Padín, 1995) para a produção estética,
em que o meio postal é o mais utilizado para os intercâmbios,
sendo, segundo Vittore Baroni (1999), “sinônimo para os circuitos postais
criativos”. Nesta rede qualquer um pode, com a maior liberdade, entrar ou
sair a qualquer momento, sendo este fluxo contínuo seu movimento vital.
As listas de endereço dos participantes são a alimentação
da rede e atuam em sua expansão, pois através delas as possibilidades
de contato entre indivíduos que tem os mesmos interesses e não
se conhecem ampliam-se. A rede não é formada por um circuito
único, mas sim por inúmeros circuitos que se intercruzam e
se relacionam.
A partir deste conceito, os artistas postais da década de 80 iniciaram
a utilização do termo Network para a definição
de suas atividades. Segundo Padín (op.cit.), caracteriza-se
como uma formação artística que acentua a comunicação
e enfatiza a arte enquanto produto da comunicação, fruto do
trabalho (work) e da trama de relações entre
os comunicadores unidos na rede (net). É o circuito que lhes
permite a conexão, como em uma rede de computadores, sem central única,
e na qual cada networker (artista da rede) atua como uma central de
reciclagem e criação estética. “Criando uma cadeia de
comunicação homogênea na qual todos os componentes são
iguais e se eximem as regras de mercado e também da tradicional dicotomia
artista/público” (Géza Perneczky, 1993 citado por Padín,
op.cit.).
quatro décadas: quatro fases
Ao considerar a arte postal como um movimento iniciado na década de
60, podemos comemorar seus quarenta anos orgulhosos, uma vez que nenhum outro
movimento da história da arte moderna teve esta duração.
E nem terá, pois, como acreditam seus adeptos, será eterna
(a Eternal Network de Filliou). Sua maturidade e solidez se evidenciam
e acabam por permitir o olhar de historiador sobre seu percurso. Assim, é
possível detectar quatro fases na história da arte postal:
a primeira fase, a partir de sua criação na década de
60 caracteriza-se por um período mais fechado, pois os participantes
das listas reduziam-se a conhecidos e pessoas envolvidas diretamente com
o mundo da arte. Na fase seguinte, que configura-se como a década
de 70, houve uma ampliação dos adeptos na rede, isso dado principalmente
pelas exibições e pelas publicações especializadas
que se espalharam pelo mundo, resultando na abertura das listas à
qualquer interessado em fazer arte. Nesta fase, se instaurou com grande força
o Do-it-yourself (faça você mesmo) impulsionando de forma
vigorosa este movimento. Na década de 80, a terceira fase, grandes
instituições voltaram seus olhos para a arte postal e assim
ela começou a aparecer em bienais e museus de renome, além
disso, instituições como universidades iniciaram seus projetos
de arte postal (1) . Cabe salientar, porém, o caráter
público de algumas destas instituições, como as universidades,
que apesar da evidente tentativa de institucionalização, não
possuem o aspecto mercadológico em suas ações, mantendo
a ideologia do movimento. E, finalmente, a quarta fase dos anos 90, em que
a arte postal se abriu para o mundo, principalmente a partir da instauração
da Internet permitindo uma maior acessibilidade ao movimento de forma rápida
e econômica.
(1) A própria
FURG teve, neste período, um grupo de arte postal ligado ao curso
de Educação Artística.
dicas funcionais (Yepiz,
2001b)
-
Enviar trabalhos artísticos a convocatórias e seguir cadeias
de cartas.
-
Conhecer um pouco de arte moderna (Futurismo, Dadaísmo, Surrealismo,
Arte Pop, Arte Conceitual, Fluxus) e de técnicas (collage, desenho,
pintura, fotografia, entre outras).
- Marcar
a tua individualidade, identidade, estilo.
- Se
não gostar do teu nome ou não desejar utilizá-lo, pode-se
utilizar pseudônimos.
-
Utilizar os mais variados elementos que te venham à mente.
- Lembrar
que existe o “ruído”, ou seja, as interações que a obra
sofre durante seu percurso.
- E usá-lo,
se assim o desejar.
- Responder
as correspondências recebidas o mais rápido possível.
-
Ter um controle da correspondência recebida, enviada e pendente.
-
Distribuir e divulgar toda a informação recebida sobre projetos
e convocatórias.
-
A regra mais importante: não há regras!
regras do jogo (Yepiz,2001a; Padin, 1985)
- As obras
devem ser enviadas por via postal. (2)
- Todas as obras
recebidas, em qualquer convocatória, sejam em qual tema for, serão
exibidas em sua totalidade.
- Não
há eleição, seleção ou júri.
- Os destinatários
responsáveis pelas convocatórias estão obrigados a acusar
o recebimento, enviando uma lista de participantes e/ou catálogo com
os endereços aos remetentes.
- As obras
não serão devolvidas, nem comercializadas, podendo ser doadas
para instituições.
- Ao receber
material que atente contra a moral (erótico, político ou extremamente
violento), deve-se manifestar o desacordo com tal, porém não
há necessidade de romper a conexão.
(2)Atualmente com o advento da Internet, existem
muitas convocatórias para envio de arte postal virtual
convocatórias
As convocatórias de arte postal são projetos criados por pessoas
e/ou organizações ligados a esta manifestação
artística. Nestes, geralmente há um tema a ser desenvolvido,
que pode ser de enfoque puramente artístico ou lúdico, mas,
há um grande número de convocatórias que assumem um
compromisso político-social, utilizando-se desse meio para realizar
denúncias, alertas ou apoios a situações injustas ou
de risco. O tamanho e as técnicas a serem utilizadas, na maioria das
vezes, são livres, porém, em alguns casos, podem estar previamente
determinadas pelo proponente.
Antes do advento da Internet, as comunicações de novas convocatórias
eram feitas via postal, em que os materiais referentes às mesmas eram
divulgados para os endereços encontrados nas listas ou catálogos
de exposições. Além disso, os próprios artistas
postais têm o compromisso de divulgar em seus circuitos os novos projetos
em vigor. Agora, ao teclar em um site de busca “arte correo”, “postal
art” ou “arte postal” um grande número de páginas relacionadas
com o tema têm disponível as convocatórias em vigor.
É possível, também, aprender muito sobre arte postal
visitando estes sites(3) . A maioria da convocatórias,
porém, pedem o envio por meio postal dando continuidade ao sistema
que tem aproximadamente quarenta anos de duração, utilizando-se
do meio virtual somente para troca de informações e exposição
das obras recebidas.
(3) Esta
pesquisa foi quase toda realizada a partir de dados disponíveis na
Internet, se houver interesse em aprofundamento no assunto há no final
do trabalho os endereços que mais me ajudaram a concretizá-la.
cadeias de cartas
Esta modalidade dentro da arte postal corresponde a uma lista de aproximadamente
dez pessoas, na qual, cada um que recebe anota seu nome no final da lista
e apaga o primeiro, enviando algo de especial (desenho, fotografia, colagem,
fita cassete, cd, cd-rom, selos, e tudo o mais que sua criatividade permitir).
Depois, faz-se dez cópias ou mais da lista e a envia a dez pessoas
diferentes. “Não se exige o envio de dinheiro ou o envolvimento em
uma religião como é comum, não tem nada a ver! É
meramente trabalho artístico e conceitual” (Yépiz, 2001a).
Cabe salientar, que as pessoas contatadas são essencialmente desconhecidos,
assim deve-se ter cuidado. “A arte postal não é um domicílio
para os corações solitários, não espere encontrar
nela o amor da sua vida, evite pedir fotos e detalhes íntimos” (Yépiz,
op.cit.).
adiciona e repassa
Os dadaístas e, principalmente, os surrealistas com seus jogos artísticos
imbuídos da cooperação já realizavam de alguma
forma o “adiciona e repassa”. Porém, foi através de Johnson
que esta atividade se consolidou no meio postal e com esta denominação
(add and pass). “O seu amor (de Johnson) pela colaboração
e pelo hábito de reciclar trabalhos velhos em novos, criou um fluxo
dentro da arte postal que circunda o globo com as instruções
add and pass” (Bloch, 1995).
Nesta atividade, há geralmente uma imagem pré-existente que
o destinatário terá que manipular e dar a ela um novo caráter.
Não necessariamente o movimento é de vai-e-volta, pode ser
requerido que o destinatário passe a outro destinatário e assim
sucessivamente até que um decida (ou já esteja pré-estabelecido
pelo proponente) que a obra esteja pronta para voltar ao remetente.
Na Internet esta modalidade é muito comum, pela facilidade em se capturar
imagens e manipulá-las virtualmente sem a necessidade da impressão,
o que barateia o custo, além de deixar o “jogo” mais rápido.
selos de artista
Esta é uma modalidade que nasceu antes da arte postal com o artista
frencês novo-realista Yves Klein. Segundo John Held (2002), este artista
elaborou um selo azul e o fixou nos convites para a sua exposição,
causando um escândalo burocrático quando chegou a ser enviado
e timbrado com êxito na década de 50. Esta atitude se tornou
um ponto de referência para a arte postal. Porém, os selos de
artistas só vieram a se tornar um importante gênero da arte
postal a partir de sua utilização pelos participantes do grupo
Fluxus e da New York Correspondance School.
Artist Stamps and Stamp Images (Canadá, 1974) organizada
por Jas Felter, foi a primeira exposição deste gênero,
tendo papel importante na sua divulgação e expansão,
além disso, seu catálogo tornou-se uma referência sobre
o tema.
A definição para a palavra “selo” para os selos de artista
refere-se “ao que poderia ser chamado de pseudo-selo de correios, ou seja,
um selo alternativo, oposto às publicações desenhadas
para o uso dos serviços postais oficiais ou governamentais do mundo”
(Felter, 1993). Os selos de artista, segundo Felter (op.cit.), são
impressos ou gravados, contêm perfurações, são
adesivos ou engomados, sendo produzidos em uma edição limitada
(assinada e numerada), contêm alguma indicação sobre
a autoridade emissora real ou imaginária, levam alguma denominação
e podem substituir aparentemente um selo sobre um envio postal, tendo o mesmo
aspecto e impressão que um selo oficial. Diferem-se das “imagens de
selo”, sugestões que lembram selos, mas são aquarelas, desenhos,
serigrafias que geralmente têm as perfurações desenhadas
e apresentam-se em tamanhos maiores que os selos convencionais. Ambos são
amplamente utilizados por artistas postais, mas não se limitam às
atividades da rede, muitas vezes sendo comercializados.
Selos de borracha
Um dos primeiros a utilizar carimbos em trabalhos artísticos foi Kurt
Schwitters. Antes de construir os Merz, realizou os chamados Stempelzeichnungen
(1918) em que carimbou palavras de maneira rítmica e de forma firme
sobre fundos claros, geralmente aquarelados.
Desde então, segundo Merz Mail (1994), são utilizados massivamente
por artistas postais de todo o mundo que se apropriam de carimbos administrativos,
fazendo interferências, ou que criam seus próprios carimbos
com mensagens e/ou imagens. A utilização de carimbos nos envios
torna a identificação fácil porque o receptor pode imediatamente
determinar a origem da mensagem. Numerosos artistas trabalham quase que exclusivamente
com a técnica dos carimbos em diversas composições como
repetição de imagens ou criando logo de artistas. “Tornaram-se
um vínculo partilhado por toda rede, em que cada artista parecia ter
o seu próprio carimbo” (Held, 1990).
Devido a sua ampla utilização foram criadas publicações,
arquivos, convocatórias e galerias destinadas exclusivamente a este
tema. Uma importante publicação, conforme Held (op.cit.),
é a Rubberstampmadness, editada por Lowry Thompson desde 1978,
que divulgou o gênero, criando uma nova indústria centrada no
uso de carimbos visuais, tanto por motivos decorativos como postais.
[...}
Lo que brilla com
luz própria
Nadie lo puede apagar
Su brilho pude alcanzar
La oscuridad de otras costas
[...]
Já foi lançada uma estrela
Pra quem souber enxergaar
Pra quem quiser alcançar
E andar abraçado nela
(Canción por la unidad latioamericana
Pablo Milanéz
Versão de Chico Buarque, 1978)
breve histórico
Na América Latina, as primeiras manifestações de arte
postal datam de 1969, na Argentina, através de Liliana Porter (1941)
e Luis Camnitzer (1937), e no Uruguai, por Clemente Padín (1939).
No Brasil, o poeta visual Pedro Lyra (1945) publica em 1970 o Manifesto
de Arte Postal.
Será em 1974, porém, que o movimento ganhará força
no continente sul-americano, pois neste ano é realizada em Montevidéu
o Festival de la Postal Creativa – primeira exposição
documentada de arte postal na América Latina. A partir de então,
inúmeras mostras começam a ocorrer, como na Argentina com a
Ultima Exposição Internacional de Arte Postal (La Plata,
1975) realizada por Edgardo Antonio Vigo (1927-1991) e Horácio Zabala
(1943).
No Brasil, Primeira Internacional de Arte Postal é a primeira
exposição do país realizada em São Paulo por
Ismael Assumpção em setembro de 1975. Foi uma convocatória
limitada a praticantes reconhecidos internacionalmente e que tinham contato
com o organizador. Em dezembro do mesmo ano, ocorreu a Primeira Exposição
Internacional de Arte Postal (Recife/PE, 1975) organizada por Paulo Bruscky
(1949) e Ypiranga Filho (1936), esta foi de grande importância porque
envolveu um grande número de artistas e também porque foi exposta
no salão de entrada de um hospital público, ou seja, em um
local nada tradicional em relação a exibições
artísticas. Em 1976, Paulo Bruscky e Daniel Santiago (1939) organizam
a Exibição Internacional de Arte Postal (Recife) que
foi fechada pelos militares uma hora após sua abertura com a prisão
de seus organizadores. Este ato repercutiu internacionalmente, mostrando
para o mundo a repressão ditatorial e o porquê do papel de luta
e denúncia assumido, a partir de então, pelos artistas latino-americanos.
edgardo antonio vigo (La Plata, Argentina,
1927)
Artista argentino foi um inovador constante de sua obra. Xilógrafo,
poeta experimental, conceitualista, construtor de “objetos inúteis”
e “máquinas estranhas”, foi uma fonte de surpresas devido ao caráter
imprevisível e inovador de suas propostas. Estudou na Universidade
de Belas Artes de La Plata em 1950, tendo recebido bolsa em 1953 para estudar
na França onde entrou em contato com a vanguarda mundial. Ao retornar
ao seu país, manteve-se extremamente ativo, sendo na década
de 60 o principal propulsor das idéias conceitualistas na América
latina. Sua tendência conceitualista se dava pelo viés da obra
auto-referente em que o espectador se torna co-autor, pois cabe a ele eleger
o sentido final da mesma. “Acreditava na obra de arte como uma atividade
lúdica de diversão e participação, dessacralizando-na
mediante a manipulação e a co-criação, a ponto
de preferir falar de ‘construtor-criativo’ em vez de espectador, fazendo
da criação artística um ato múltiplo e não
individual e solitário” (Padín, 1997).
Na década de 70, se integra aos circuitos de arte postal sendo um
dos mais constantes criadores da rede até o dia de sua morte. Sua
obra assume um caráter fortemente político quando tem seu filho
levado pela ditadura militar. Isto o faz ampliar seus contatos internacionais
para difundir a opressão brutal e o desrespeito aos direitos humanos
deste sistema político. “Suas obras perdurarão eternamente
enquanto exista no homem esse afã pela liberdade, que ele tentou manter
acordado provocando-nos com a capacidade de eleger entras as várias
possibilidades de significação (inclusive a de alterar o sentido)
que suas obras ofereciam, assumindo e concretizando, através da opção,
nossa mais genuína natureza: a aspiração por liberdade”
(Clemente Padín,. op. cit).
clemente padín (Lascano, Rocha, Uruguai 1939)
Poeta, artista e desenhista gráfico, performer, video-artista,
multimídia e networker tem servido de inspiração
a muitos artistas sul-americanos. Suas atividades artísticas são
calcadas na experimentação, em especial a poesia, sua atividade
principal.
Licenciado em Letras Hispânicas na Universidade do Uruguai foi diretor
das revistas de poesia Los Huevos del Plata (1965-1969), Ovum10
e Ovum (1969-1975). Autor de 18 livros publicados na América
e Europa. Seus textos foram traduzidos e publicados por diversas revistas
e publicações de todo mundo. Participou em centenas de exposições
internacionais de poesia experimental e em milhares de convocatórias
de arte postal, da qual é adepto desde 1967. Como um ativista político,
acreditava que:
[...] a questão não é
somente levar a arte para a rua, mas sim transformar seu significado social
em ações e trabalhos que tem que estar introduzidos ativamente
em seu desenvolvimento, fazendo referência, antes de tudo, àqueles
problemas que se ocultam, sensibilizando as pessoas, tentando dar-lhes ânimos
para mudar suas perspectivas. E essa modificação transformaria
a obra de arte, seu consumo e inclusive a relação artista-espectador.
(Clemente Padín citado por Held, 1990)
Nos anos 70 Clemente Padín
e seu companheiro Jorge Caballo caíram vítimas do golpe uruguaio.
A ditadura entendeu como subversivas as mensagens de ambos. A sua libertação
provocou uma campanha mundial através da rede postal, aglutinando
pessoas e instituições de diversas índoles. “Do mundo
inteiro surgiram vozes condenando a prisão, exigindo suas integridades
físicas e morais e a libertação imediata de ambos” (Vigo,
1990).
paulo bruscky (Recife, Pernambuco, Brasil,
1949)
Artista plástico e desenhista, nasceu no Recife em 1949, filho de
um fotógrafo polonês e de uma pernambucana de Fernando de Noronha.
Prioriza as pesquisas experimentais no seu trabalho. A partir de 1969, aumenta
suas realizações no campo da arte conceitual e experimental
fazendo pesquisas múltiplas que envolvem o espaço e o ambiente,
em intervenções e materiais diversos, como happenings,
carimbos, copy art, áudio arte etc. Desenvolve, a partir de 1970,
pesquisas em copy art (eletrografia), expondo o resultado numa mostra
individual na Galeria Empetur, em Recife. Em 1973, ingressa no Movimento
Internacional de Arte Postal. Em 1974, lança, com Daniel Santiago,
o Movimento/Manifesto Nadaísta, que faz uso do suporte super-8.
Os materiais mais utilizados no seu trabalho são o gelo, a fumaça,
a tecnologia, fazendo uso do tempo e de "coisas sensoriais" também
como elementos de criação. Foi um pioneiro na aplicação
artística de várias tecnologias, como gravação
eletrônica, projeção de diapositivos, fac-símile,
filme super-8, vídeo, xerox, off-set e mimeógrafo, sendo
também o pioneiro da vídeo-arte fora do eixo Rio-São
Paulo. Possivelmente, foi o mais entusiasta promotor da arte postal no Brasil.
Bruscky já obteve vários prêmios internacionais entre
os quais o de Artes Visuais da Foundation Guggenhein de Nova York, EUA. É
sócio fundador e ex-presidente da Associação dos Artistas
Plásticos Profissionais de Pernambuco, membro da International
Association of Art, da Association International des Arts Plastiques,
e sócio-fundador e ex-presidente da Associação Nacional
de Pesquisadores em Artes Plásticas.
ditadura: a repressão
No período ditatorial a arte postal, como as demais manifestações
artísticas, sofre forte repressão. “[...] quando se estabelece
uma ditadura os primeiros a serem encarcerados são os poetas, por
quê? Porque obrigam as pessoas a optar, a eleger entre diversas opções
e este modo de ação se transmite a toda conduta humana. A quem
costuma optar não se pode impor regras” (Padín em entrevista
a Leão, 2003). Neste período, a arte postal voltou-se totalmente
para a denúncia deste sistema opressor, o que fez com que seus adeptos
pagassem um duro preço. No Brasil, em 1976, a Exposição
Internacional de Arte Postal, organizada por Paulo Bruscky e Daniel Santiago,
é apreendida pelos militares, e vários artistas postais de
toda a América Latina como Jorge Caballo, Clemente Padín, Jesús
Romeo Galdaméz, entre outros, são presos e torturados pela
opressão e arbitrariedade deste sistema, além do desaparecimento
de Paulo Vigo, filho do artista postal argentino Edgardo Vigo.
Apesar de em outros lugares a arte postal banalizar-se e até comercializar-se,
nos países da América Latina as particularidades e tradições
locais deu a esta manifestação um caráter especial de
luta e denúncia, o que segundo Gerardo Yépiz (2001b), soma-se
ao esforço do nosso povo por ascender a melhores e mais humanas condições
de vida, a fim de se obter paz e justiça social. Neste sentido, a
arte postal tem uma enorme força nos países latino-americanos,
sendo intensamente ativa nos mesmos.
bienais: década de 80
A partir de 1980, a arte postal revigora-se, podendo-se destacar: a inclusão
de uma sessão desta manifestação na XVI Bienal de São
Paulo, em 1981; a criação do grupo Solidarte e Colectivo
3 no México; a criação da Asociación Uruguaya
de Artistas Postales, em1983; a fundação da Asociación
Latinoamericana y del Caribe de Artistas Postales na Argentina.
A arte postal é considerada, por críticos e historiadores de
arte, uma das importantes formas de expressão artística
dos anos 80 (Piraí, 1996: 234). Isto se dá justamente pelo
fato de ser colocada em exposições de repercussão internacional
do meio artístico oficial. Porém, esta consideração
não pode ser válida, pois como afirma Araci Amaral (1981:395),
exibir o resultado das trocas de arte postal de maneira convencional é
“violentar este circuito, neutralizá-lo”. Desta forma, concordando
com Argañaraz (2002), acredito que a “época dourada” da arte
postal internacionalmente foi os anos 70, quando esta manifestação
se abriu para o mundo com inúmeras publicações e exibições.
É claro que seguindo a lógica em seus quarenta anos de existência,
em que a cada geração o número de adeptos aumenta e
o próprio mundo se torna mais democrático, hoje seria a sua
época mais importante no sentido de haver, segundo Padín (1995),
em torno de 5.000 networkers em plena atividade.
Apesar de tudo que foi mencionado, as Bienais tiveram o seu papel positivo
no sentido de ampliar o conhecimento desta manifestação para
um público ainda estranho a ela. Além disso, as associações
que se formaram e o apoio de instituições públicas sem
fins comerciais, como as universidades, consolidaram os ideais da rede, impedindo
que a evidente tentativa de institucionalização se consolidasse.
gilbertto prado (Santos, São Paulo,
Brasil, 1954)
Artista multimídia, estudou Engenharia e Artes Plásticas na
Unicamp (Universidade de Campinas - São Paulo). Começou suas
atividades artísticas no final dos anos 70 participando intensamente
do movimento de Mail Art e de diversas exposições e projetos,
entre eles: XVI Bienal de São Paulo, (setor: Mail Art, 1981). Organizou
e concebeu diversas exposicões como: Welcomet Mr. Halley ,
Paço das Artes (1985); A Terra e Seus Terráqueos em 88 , Clube
de Criação de São Paulo. Em 1994 obteve seu doutorado
em Artes na Universidade de Paris 1 e atualmente é professor do Departamento
de Artes Plásticas da ECA - USP.
Nos anos 80 começa a trabalhar de maneira mais sistemática
com as redes artístico-telemáticas, sendo um dos nossos maiores
entusiastas da arte-comunicação, tanto do ponto de vista do
estudo teórico, da produção criativa, como também
da organização de eventos relacionados à área.
A arte em rede é também
uma forma de dança ritual e coletiva, que se compõe num espaço
e numa situação virtual propostos por um artista, criador de
um campo de possibilidades, com instantes onde olhares distintos se cruzam
ou se fazem cruzar, para dar numa ação (ou numa não
ação). (Prado, 2003)
Acreditando no potencial de acessibilidade do meio virtual, Prado investe
na reflexão das poéticas tecnológicas, privilegiando
a dimensão artístico-telemática através do projeto
wAwRwT . Através deste projeto, Prado e sua equipe também
produzem e expõem arte voltada exclusivamente para o meio eletônico.
hudnilson jr. (São Paulo, capital,
Brasil, 1957)
Trabalha com grafite, intervenção, montagem, xerografia, performance
e o que mais lhe vier a mente, caracterizando-se como um artista multimídia.
Cursou Artes Plásticas na Fundação Armando Álvares
Penteado, 1975/77. De 1979 a 1982 formou e participou do grupo 3 Nós3,
com Mário Ramiro e Rafael França, quando realizavam intervenções
em espaços públicos. Seu trabalho mais conhecido é a
série Xerox Action (83), em que fotocopia partes de sua anatomia,
especialmente a genitália. Sempre se manteve paralelo aos circuitos
oficiais de arte, apesar de ser uma referência para o grafite brasileiro,
além de ser um dos poucos brasileiros dedicado à arte homoerótica.
Sua obra é quase ignorada por
museus e galerias, pois além de ter preferido formas de democratização
da arte surgidas nos anos 60, como a “mail art”, a mídia xerox, a
apropriação de imagens em colagens e o próprio grafite
mural, seus trabalhos geralmente contêm nus masculinos frontais ou
se apropriam de fotos e desenhos pornô. (Machado, 2003)
Seu caráter marginal o levou a arte postal, onde manteve-se ativo
principalmente na década de 80. Desde este período também
monta cadernos-diários, neles faz colagens/montagens diárias
e, segundo o próprio artista, raramente escolhe figuras femininas
porque é tudo bastante confessional, focado no corpo e no olhar narcísico,
vários graus além do bom comportamento (Hudnilson, citado por
Machado op.cit). Segundo Matrin Grossmann (citado por Machado op.cit.),
Hudinilson Jr. é “um caçador de imagens”.
lenir de miranda (Pedro Osório,
Rio Grande do Sul, Brasil)
Graduada em Pintura, pela Escola de Belas Artes D. Carmem T. Simões
(Pelotas/RS), e em Comunicação Social, pela Pontifícia
Universidade Católica do Rio Grande do Sul (Porto Alegre/RS). Lenir,
através destas duas formações, consegue realizar um
trabalho que une escrita (4) e pintura. Como ela mesma afirma,
“as palavras também me fascinam e formam, como as demais imagens,
enigmas que nos acompanham e iluminam” (Miranda, 1987:05).
Atualmente entre suas pinturas realiza livros de artista: “a escrita pintada,
a pintura escrita” . Nestes, segundo Cattani (2001:03), imagem e palavra
andam juntas, “correspondem-se sem se explicarem mutuamente, complementam-se
sem se fundirem”. Ao trabalhar “joyceanamente” em seus livros dá continuidade
ao Projeto Ulisses realizado na década de 80, em que colocou junto
com seus desenhos, pinturas e instalação trabalhos de outros
artistas conectados a ela pela rede de arte postal, formando um amálgama
de significados “in comunicáveis”. “O Projeto Ulisses é uma
sintonia sígnica, livre, mesmo aleatória, a partir de matrizes
poético-visuais desencadeantes, entre diversos artistas” (Miranda,
1988:09).
Como não podia deixar de ser, na sua busca por uma arte-comunicação,
Lenir foi uma artista postal bastante atuante tendo seu nome citado entre
os principais deste gênero no cenário latino-americano. Atualmente,
continua de forma menos intensa suas atividades postais, sendo que sua energia
se volta mais para seus livros e, principalmente, para sua pós-graduação
em Poéticas Visuais pela Universidade Federal do RS (Porto Alegre).
(4) Extrato de texto inédito, a ser publicado no livro “Sinalização”
de Lenir de Miranda
tentativa de institucionalização
A inclusão da arte postal em exposições oficiais e bienais
é a tentativa do sistema de englobar, de tomar para si, esta manifestação
que se faz por ser marginal, e que só tem sentido nesta sua condição
“alternativa”. Como afirma Arenzas (1994):
A lei de
ferro do sistema em operação: primeiro a atividade simbólica
dos povos cria os movimentos artísticos para marcar as carências
e imperfeições no tecido social e, logo, o sistema, uma vez
passado o furor iconoclasta dos primeiros momentos, os coloca a seu serviço,
mediante a institucionalização e transformando em mercadoria
aquilo que havia sido criado para atacá-lo, sujeitando-o às
leis do mercado.
Neste sentido, hoje existem obras postais que são comercializadas,
convocatórias com júris, censura, etc. Mas, felizmente, apesar
de seus quarenta anos de existência, este número ainda é
pequeno, estando os artistas postais atentos a estas “armadilhas” do sistema.
Muito provavelmente a institucionalização falhou pela dificuldade
dos críticos e estudiosos de arte em se definir exatamente o que é
arte postal.
Se pudessem definir a arte postal em
uma ou duas frases iniciariam sua institucionalização e as
páginas dos livros de arte acolheriam o novo termo com grande beneplácito,
claro que então iniciaria o fim da arte postal tal como a conhecemos
hoje [...] Não defino arte postal, a faço! (Gracia, 2002).
Somente quem entra nos circuitos consegue compreender qual o real significado
da arte postal, e assim que o compreendem a mantêm a salvo.
A alma livre é rara,
mas a identificas quando a vê:
basicamente porque te sentes bem, muito bem, quando estás
com elas ou próximo delas.
(Charles Bukowski)
1a.
convocatória – frança
Ao fazer um trabalho para a disciplina de “Arte e cultura latino-americana”,
em 2001, cujo tema escolhido era arte postal, tive o contato com esta manifestação
e apaixonei-me. Na busca incansável de bibliografia para o tal trabalho
me deparei com inúmeras convocatórias. A uma delas não
pude resistir porque estava justamente trabalhando com aquele tema em fotografia.
Assim, meu primeiro trabalho postal foi Eat me, em que enviei, conforme
o pedido, uma parte de meu corpo. Ainda não recebi o retorno desta
convocatória, mas o aguardo ansiosa...
A proposta era “Mande-me uma parte de seu corpo, que eu te mandarei um minha”
(Corps à Corps) encontrada no site: http://lauranne.lauranne.free.fr/index.html,
a data limite estava em aberto, bem como as técnicas a serem utilizadas,
a única restrição era o tamanho (10x10 cm).
Depois disto não consegui participar mais de nenhuma convocatória
até iniciar este trabalho. Agora já mandei um trabalho, junto
como o termo de adesão, para a convocatória Día del
arte correo(5) , promovida pelo Vórtice-Argentina,
que tem como objetivo estabelecer dia 5 de dezembro como o dia da arte postal.
Além disso, tenho navegado muito pela internet e sempre tem surgido
propostas que estão sendo elaboradas e outras de envio mais imediato
como os “adiciona e retorna” .(6)
Esta é a emoção de cair na rede, você não
quer mais sair!
(5) O cupom e o termo de adesão
desta convocatória encontram-se no capítulo 2 - Para fazer
arte postal (Convocatória).
(6) Um exemplo deste tipo de envio se
encontra no cap. 2 – Para fazer arte postal (Adiciona e Retorna).
exposição e palestra - teatro do Sol
Depois do trabalho anteriormente mencionado e da convocatória, deixei
a arte postal um pouco esquecida. Porém, ao fazer o estágio
final de curso tive a oportunidade de conhecer uma professora de artes, Célia
Pereira, que estava trabalhando com o formato postal com os alunos, isto
me levou a contar minha paixão por postais, a lhe mostrar minha coleção
e, obviamente, a lhe falar sobre arte postal. Estas conversas se transformaram
em uma exposição dos postais colecionados ao longo de anos
e de uma palestra para a comunidade sobre esta forma de arte.
O Teatro do Sol foi o espaço em que ocorreram estas atividades, o
grupo que coordena o local realiza eventos artísticos e culturais
com entrada franca para a comunidade. Sua ideologia de popularizar a arte
coincide com a ideologia da arte postal. A partir destas atividades, viu-se
a necessidade de criar um grupo de arte postal Aiecoatiara, palavra tupi-guarani
que significa escrever, desenhar e assinar carta. Este grupo ainda está
engatinhando, mas já tem propostas, entre elas está a convocatória
“Manifeste-se contra a ALCA”, lançada dia 29 de outubro de 2002 com
data de encerramento para dia 31 de outubro de 2003. A proposta desta convocatória
é apoiar o plebiscito ocorrido em 2002 e manter viva esta discussão
política que diz respeito a toda América Latina e à
soberania de seus países.
alternativa ao sistema
A arte postal surgiu como uma alternativa ao sistema de arte oficial e, justamente
por isso, caracteriza-se por uma manifestação de quase total
liberdade. Não o é totalmente porque existe a premissa estética,
que permeia todo objeto artístico e a comunicacional, uma vez que
a comunicação é primordial para a arte postal.
Nela há o franco diálogo entre produtor e consumidor, sendo
que são os próprios artistas postais quem consomem arte postal.
É um processo cíclico, não fechado em si mesmo, na medida
em que se comunica com outras manifestações, não só
artísticas como sociais, e permite a entrada/saída a qualquer
momento dos elos desta corrente. Segundo Jorge Solis Arenazas (1994), a arte
postal exalta o valor de uma comunicação plural e multilateral,
unindo compromisso crítico e criação dinâmica.
Como reitera Gianne Broi (2000):
A arte postal é, em si mesma,
“outro” tipo de sociedade comparada como a maior do marco social, é
“outro” sistema comparado como a maior do sistema artístico
que a vanguarda não foi capaz de imitar; é um fator de perturbação,
um foco de resistência não controlado. Desde que a arte postal
existe, temos um ponto de vista concreto de referência, real
não utópico, contra toda tendência de globalização
no campo da criatividade artística.
Esta manifestação favorece novas relações, dando
abertura a novos modelos de comportamento, além disso, é evidente
sua participação social em busca de melhores condições
de vida que faça possível a todos o privilégio de criar
e/ou desfrutar da criação artística. Fazer arte postal
também é buscar uma nova ordem mundial.
um outro mundo é possível
A arte postal é um universo onde tudo é permitido e onde, plagiando
o slogan do Fórum Social Mundial, “um outro mundo é
possível”. Encanta, justamente, por permitir o livre trânsito
de qualquer cidadão do mundo, de tornar factível um mundo sem
fronteiras através da comunicação de pessoas culturalmente
diferentes, mas tão próximas nas idéias. O que importa
aqui não é a fama, não é a arte enquanto produto
lucrativo, mas sim o que há de mais importante na expressão
artística: o comunicar, a aproximação de um ser humano
a outro.
Com suas bases ancoradas na Eternal network de Filliou, a rede postal pode
ser considera uma comunidade ideal de artistas livres do individualismo e
da competição, que incide diretamente na vida, abrindo uma
nova era em que o fluxo de trabalhos vá do diálogo e intercâmbio
a colaboração e ao trabalho em equipe permitindo que se realizem
trabalhos conjuntos – é o que ilumina e instiga os artistas postais
a continuarem e aos novos a aderirem.
A arte postal rompe fronteiras e culturas e torna-se um veículo social,
pois abre
[...] a possibilidade para cada um
dos networkers de tecer uma rede personalizada para desenvolver concretamente
seus interesses y projetos pessoais, para encaminhar um diálogo sobre
una base igualitária com outros artistas distantes que vivem em diferentes
realidades sócio-culturais. (Vittore Baroni, 1994)
caixa de supresas!
A arte postal é a campainha
a tocar, um envelope ser entregue, sua abertura e leitura ocorrer na intimidade
do receptor, assim como o preparo da resposta, ou a incorporação
na mensagem recebida de dados fornecidos pelo mesmo receptor, que se torna
também agente, com a devolução da mensagem pelo correio
[...] é certo ser essa uma forma criativa de comunicação
apesar da distância [...] a encher de novidades, fotos e brindes a
nossa imaginação, idealizando-se o interlocutor silencioso
e distante. (Amaral, 1981:395)
A primeira vista, comparado aos telefones, fax, computadores e televisões,
o sistema postal parece ser lento, inseguro, complicado, inábil, incontrolável
e ineficiente. Porém, estas imperfeições deixam espaço
para o jogo, para a invenção, para a surpresa, ou seja, as
qualidades que encantam os artistas que realizam os intercâmbios. Além
disso, o fato de receber um pacote, de tocar o papel, de sentir as texturas
e odores, a duração da espera da resposta, adiciona mistério
na correspondência postal. Cada troca é como abrir uma caixa
de surpresa, que nos traz a inocência e a magia infantil. É
brincar para tornar a vida menos monótona. Este é o grande
mérito da arte postal, ter conseguido algo que foi sempre perseguido
pelas vanguardas: unir arte e vida.
Esta união faz da arte postal uma atitude, uma filosofia de vida,
em que as pessoas realmente envolvidas têm uma ética quase religiosa.
“A maioria das obras de arte postal se criam porque seus criadores crêem
que o trabalho empregado nestas obras tem, de certo modo, um valor moral”
(Held, 1990).
artistas postais: autodeglutidores
A arte postal não quer ser consumida pela academia, nem pelos “oficiais
da arte” (críticos, salões, historiadores, etc.), quer sim
ser consumida, mastigada, deglutida e digerida pelos próprios artistas
da rede. Estes, na busca de se expressar, se comunicar, saber que há
pares por todo mundo, produzem arte postal. Sabem que não serão
julgados. Não serão excluídos. Sua arte será
recebida como um presente, um regalo, por alguém que pode ou não
ter suas mesmas ansiedades, mas que acima de tudo é um ser humano
– como eu ou como você – e que por isso também precisa saber
que não está sozinho nesta grande ilha chamada Terra.
Esta característica de regalo é definida por Broi (2000),
como o “princípio do obséquio”, no qual o que importa é
o impulso da generosidade e da amizade incondicional. E, segundo este autor,
é neste princípio que reside o principal poder de atração
da arte postal.
A autodeglutição se apóia no fato desta manifestação
requerer um pleno envolvimento. “Para conhecer arte postal tem que se fazer
arte postal”(Held, 1990). Está nas mãos do artista a produção,
a distribuição e o consumo desta arte. O seu valor não
é econômico, nem se encontra no objeto em si, ao contrário
o valor é a troca, está no processo de intercâmbio. E
“o intercâmbio está baseado na confiança e crédito
mútuo [...] De modo que o aspecto ‘material’ de receber uma resposta
(em forma de um catálogo, uma lista de endereços ou uma carta
pessoal) é especialmente importante por suas conseqüências
psicológicas (e por isto práticas): manter-se em comunicação”
(Bleus, 2002). Quando se participa da rede postal um vínculo emocional
é criado e o sentimento de amizade dá resistência à
trama, que não será rompida tão facilmente devido ao
contínuo ir e vir dos pontos da agulha.
vitalidade pulsante
Hoje em dia, a arte postal não está mais vinculada exclusivamente
ao sistema postal oficial – entenda-se correios – mas há já
a utilização do fax e, principalmente da Internet. Esta, a
seu modo e no momento exato, chegou para manter a vitalidade da rede, pois
ela conecta de maneira rápida e bastante democrática, tornando
as informações históricas e estruturais acessíveis
a um maior número de interessados, bem como divulga com maior eficácia
os projetos e convocatórias desta manifestação. Além
disso, há o aspecto multimídia que permeia esta produção
em rede e, assim sendo, o meio virtual não poderia ficar de fora.
A entrada destas tecnologias na network marca a sua quinta fase.
Na era da famosa globalização e do tão falado respeito
às diferenças, a arte postal vem através de todos seus
caminhos de conexão como uma proposta concreta de união, fraternidade
e respeito.
Os artistas postais estão preparando
o terreno para a interação mundial entre nacionalidades desde
uma base popular. Mais que a criação de um mundo cultural,
a arte correio está demonstrando que o respeito por idéias
divergentes pode ser um poderoso estratagema para a reconciliação
entre as diferenças multinacionais e que culturas específicas
podem interatuar para produzir ‘situações abertas’, em que
cada representação cultural pode contribuir de maneira importante
para o processo integrado de criação. (Held, 1990).
considerações finais
Este trabalho configura-se como uma pequena amostra das possibilidades que
a arte postal permite, afinal a cada dia novos caminhos são abertos
e não há como concentrar toda a sua abrangência. Creio
que o objetivo inicial de fornecer um panorama histórico deste movimento
foi atingido ao mesmo tempo em que admito ter vários caminhos de pesquisa
possíveis para um longo percurso.
O trajeto até aqui traçado só foi possível pela
existência da Internet. Esta foi uma ferramenta referencial fundamental,
sem a qual este projeto não poderia ser realizado uma vez que a bibliografia
impressa é bastante escassa no país. Porém, há
que se ter cuidado! Esta ferramenta pode se tornar uma armadilha, pois cada
novo item descoberto vem acompanhado de inúmeras outras informações,
o que acaba por acarretar no risco da perda do caminho original. Acredito
que “caí na rede”, mas não fiquei presa em seu ardil…
Espero que o meu principal objetivo tenha sido conquistado: que você
leitor tenha se apaixonado, começando no mesmo instante em que fecha
o trabalho a ter idéias postáveis. CORRESPONDA-SE!!
referências bibliográficas
ADES, D. Dadá e Surrealismo. In: STANGOS, N (org.). Conceitos da
arte moderna. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1991.p.81-99.
ALLOWAY, L. Ray Johnson. 1977. In: http://www.artpool.hu/Ray/RJ_title.html,
disponível dia 13 de dezembro de 2002/16:43h.
AMARAL, A. Bienal: primeiras impressões (1980). In: ______. Arte
e meio artístico: entre a feijoada e o x-burguer. São Paulo:
Nobel, 1983. p. 391-96.
ARENAZAS, J. S. Circuitos Abiertos: el arte correo en la VII Bienal de
Poesía de Mexico. Revista Neural no. 03, Itália: março-abril,
1994. In: http://www.vorticeargentina.com.ar/escritos/arte_correo_menu.htm,
disponível no dia 27 de novembro de 2001a/16:15h.
ARGAN, G.C. Arte Moderna. São Paulo: Companhia das Letras,
1998.
ARGAÑARAZ, N. N. Mail art. In: http://www. concentric.net, disponível
no dia 22 de dezembro de 2002/14:33h.
BACELLI, V. El futurismo postal. In: http://www.vorticeargentina.com.ar/escritos/arte_correo_menu.htm,
disponível no dia 27 de novembro de 2001/17:15h.
BARONI, V. Greetings & kisses or mail art and the critics, a brief
report on a difficult relationship. 1999. In:
http:// www.newobservations.org/issues/126/kisses/kisses.html, disponível
dia 28 de dezembro de 2002/16:42h.
______. Ray Johnson Remembered. Arte Postale!, 69, 1995. In: http://www.sapienza.it/magam/inglese/library/raymember.html,
disponível no dia 13 de dezembro de 2002/17:06h.
______. Enter Networld: em principio era el mail art. Revista Neural,
no. 3, março-abril 1994. In: http://www.vorticeargentina.com.ar/escritos/arte_correo_menu.htm,
disponível no dia 27 de novembro de 2001/20:36h.
BEIJA-PÁL, K. Luther Blissett, a legend of global ignorance.
In: http://www.artpool.hu/Ray/RJ_title.html,
disponível no dia 13 de dezembro de 2002/17:24h.
BLEUS, G. Una introducción sobre arte e intercambio. In:http://www.merzmail.net//held.htm,
disponível no dia 28 de dezembro de 2002/16:45h.
______. Informe administrativo sobre arte postal. In: http://www.vorticeargentina.com.ar/escritos/arte_correo_menu.htm,
disponível no dia 27 de novembro de 2001/17:15h.
BLOCH, M. A Ilustrated Introduction to Ray Johnson (1927-1995). 1995.
In: http://www.echonyc.com/~panman/Ray_Johnson.html,
disponível no dia 13 de dezembro de 2002/17:11h.
BOURDON, D. Cosmic Ray – A open letter to fouder of the New York Correpondance
School. 1995. In: http://www.artpool.hu/Ray/RJ_title.html,
disponível dia 13 de dezembro de 2002/23:40h
BRADLEY, F. Surrealismo. São Paulo: Cosac & Naify, 1999.
BROI, G. Mi trajectoria em arte correo. 2000. In: In: http://www.vorticeargentina.com.ar/escritos/arte_correo_menu.htm,
disponível no dia 27 de novembro de 2001/21:21h.
CHIPP, H.B. Teorias da arte moderna. São Paulo: Martins Fontes,
1996.
CORREDOR-MATHEOS, J.; MIRACLE,D.G. A pintura no século XX.
Rio de Janeiro: Salvat, 1979.
FELTER, J.W. Artiselos. Paris: Museé da Poste, 1993. In: http://www.terra.es/personal3/tartarug/cdc/cdc004.htm,
disponível dia 28 de dezembro de 2002/17:03h.
FERNANDÉZ, J.L.C. El mail art. Comunicação apresentada
no IV Encuentro Internacional de Editores Independientes. Punta Úmbria,
Huelva: 1-3 março de 1997. In: http://www.vorticeargentina.com.ar/escritos/arte_correo_menu.htm,
disponível no dia 27 de novembro de 2001/17:15h.
FRIEDMAN, K. Os primeiros días da Mail Art: unha visión
histórica. 1995. In: http://www.terra.es/personal3/tartarug/cdc/cdc002.htm,
disponível no dia 28 de dezembro de 2002/13:00h.
GOMBRICH, E. H. A história da arte. Rio de Janeiro: LTC, 1993.
GRACIA, S. de. ¿ Por qué definir el arte correo? In:
http://www.vorticeargentina.com.ar/escritos/arte_correo.html,
disponível no dia 28 de dezembro de 2002/17:34h.
HELD, J.Jr. Do Dadá ao DIY. In: http://www.merzmail,net/diy.htm,
disponível dia 28 de dezembro de 2002/16:49.
______. Três ensaios sobre arte correio. Texas, 1990.In: http://www.merzmail.net/held.htm,
disponível no dia 28 de dezembro de 2002/16:42h.
HOVDNAKK, P. Preface. In: http://www.nutscape.com/fluxus/homepage/fpw_pref.html,
disponível no dia 26 de dezembro de 2002/ 01:36h.
IBIRICO. Historia del Correo. In: http://www.vorticeargentina.com.ar/escritos/arte_correo_menu.htm,
disponível no dia 27 de novembro de 2001a/17:15h.
______. Orígenes del correo y mail art. In: http://www.vorticeargentina.com.ar/escritos/arte_correo_menu.htm,
disponível no dia 27 de novembro de 2001b/17:15h.
KITSELMAN-AMES, A. Fluxus. In: http://www.dragonflydream.com/Fluxusdef.html,
disponível no dia 30 de novembro de 2002/18:05h.
LEÃO, R. S. Entrevista com Clemente Padín. In: http://www.geocities.com/SoHo/Lofts/1418/padin.htm,
disponível no dia 21 de janeiro de 2003/10:38h.
LUCIE-SMITH, E. Arte Pop.In: STANGOS, N. Conceitos da arte moderna.
Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1991. p. 160-9.
MACHADO, A. Diário de um caçador de imagens. In: http://www.opera-prima.com/hdnilapres.html,
disponível no dia 22 de janeiro de 2003/01:24h.
MAIL, M.. Introducción a la tarjeta postal. In: http://www.vorticeargentina.com.ar/escritos/arte_correo_menu.htm
disponível no dia 27 de novembro de 2001/17:15h.
_____. Mail art show hommage to Kurt Schwitters. 1994. In: http://www.merzmail.net/hommage.htm,
disponível no dia 28 de dezembro de 2002/16:53.
PADÍN, C. Edgardo Antonio Vigo: vocación libertaria. Montevidéu,
1997. In: http://www.vorticeargentina.com.ar/escritos/arte_correo_menu.htm,
disponível dia 27 de novembro de 2001/17:00h.
______. El Network: la red internacional de poetas. 1995. In: http://www.merzmail.net/network.htm,
disponível no dia 28 de dezembro de 2002/16:59h.
PHILLPOT, C. The Mailed Art of Ray Johnson. 1995. In: http://www.artpool.hu/Ray/RJ_title.html,
disponível no dia 13 de dezembro de 2002/17:17h.
PIRAI, J. Breve introdução à arte postal. In:
Centro Cultural São Paulo. Divisão de Artes Plásticas
(org.). Acervo da Pinacoteca Municipal. Apresentação Rodolfo
Konder et al. São Paulo: Centro Cultural, 1996. 237 p., il. color.
PLUNKETT, E.M. The New York Correpondence School. 1997. In: http://www.artpool.hu/Ray/RJ_title.html,
disponível no dia 13 de dezembro de 2002/23:38h.
PRADO, G. Experimentações artísticas em redes telemáticas.In:
http://www.dcs.pucminas.br/nnt/agenda_txt2.htm,
disponível no dia 22 de janeiro de 2003/11:32h.
SMITH, R. Arte Conceitual. 1980. In: STANGOS, N (org.). Conceitos
da arte moderna. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1991.p.182-92.
VERAS, T. Breve historia del correo... y algo más. In: http://www.vorticeargentina.com.ar/escritos/arte_correo_menu.htm,
disponível no dia 27 de novembro de 2001/17:15h.
VIGO, E.A. A cerca de mi comunicación a distancia. 1990. In:
http://www.vorticeargentina.com.ar/escritos/arte_correo_menu.htm,
disponível no dia 27 de novembro de 2001/18:15h.
WILSON, W. Reference and report. 1977. In:http:// www.artpool.hu/Ray/RJ_title.html,
disponível no dia 13 de dezembro de 2002/17:22h.
WOOD, P. Arte Conceitual. São Paulo: Cosac & Naify, 2002.
YÉPIZ,G. Guia para el futuro artista postal. In: http://www.vorticeargentina.com.ar/escritos/arte_correo_menu.htm,
disponível no dia 27 de novembro de 2001a/18:00h
______. Sobre Arte Postal. In: http://www.vorticeargentina.com.ar/escritos/arte_correo_menu.htm,
disponível no dia 27 de novembro de 2001b/18:00h
bibliografia consultada
ARGAÑARAZ, N. N. Latin América: a new stage in the development
of mail art. In: http://www.concentric.net/~Lndb/padin/lcpma,
disponível no dia 23 de dezembro de 2002/14:56h.
ART Market Information. In: http://web.artprice.com/en/ArtistSearch.aspx,
disponível no dia 15 de janeiro de 2003/2:00h.
BARONI, V. Arte Postale! Historia. 1995. In: http://enea.sapienza.it/mamgam/inglese/library/postale.html,
disponível dia 28 de dezembro de 2002/20:13h.
BLEUS, G. Iniciación al arte-correo o arte postal. In: http://mailartzenon.3dup.net/init.htm,
disponível dia 28 de dezembro de 2002/19:48h.
______. A brief history of mail art.In: http://mosaic.echonyc.com/~panman/one/history.html,
disponível dia 28 de dezembro de 2002/20:11h.
BLOCH, M. Communities collage: mail art and Internet. In: http://www.newobservations.org/issues/126/commcollage/commcollage.html,
disponível no dia 28 de dezembro de 2002/16:45h.
BLOM, I. Hiding in the woods. In: http://www.nutscape.com/fluxus/homepage/ina1blom.html,
disponível no dia 26 de dezembro de 2002/01:48h.
CAMPAL, J. L. Unas escuetas notas sobre eletrografia y copy art.In:
http://www.merzmail.net/electrografia.htm,
disponível dia 28 de dezembro de 2002/16:56h.
______. Uma ojeada a las revistas ensabladas. In: http://www.merzmail.net/campalrevista.htm,
disponível dia 28 de dezembro de 2002/16:57h.
CIRLOT, L. Consideraciones en torno del mail-art. In: http://www.merzmail.net/consideraciones.htm,
disponível dia 28 de dezembro de 2002/16:48h.
CORROTO, M. Introduction. In: http://www.newobservations.org/issues/126/artinemail/artinemail.html,
disponível dia 28 de dezembro de 2002/19:55h.
CURRICULUM Clemente Padín. In: http://www.nuevaliteratura.com.ar/padin1.htm,
disponível dia 21 de janeiro de 2003/10:28h.
DELGADO, F. G. Carta abierta a la huelga de arte 2000-2001. Buenos
Aires: Vortice no. 17, setembro de 1999. In: http://www.vorticeargentina.com.ar/escritos/arte_correo_menu.htm,
disponível no dia 27 de novembro de 2001/20:38h.
ELIOT, K.Manifesto no mas obras maestras. In:http:// www.merzmail.net/plag.htm,
disponível dia 28 de dezembro de 2002/16:50h.
ENCICLOPÉDIA Itaú cultural. In: http://www.itaucultural.org.br,
disponível no dia 16 de janeiro de 2003/15:13h.
ENCICLOPÉDIA Verbo na Internet. In: http://www.editorialverbo.pt/enciclopedia/consulta.frame.html,
disponível no dia 15 de janeiro de 2003/01:08h.
ENTREVISTA a César Reglero. In: In: http://www.vorticeargentina.com.ar/escritos/arte_correo_menu.htm,
disponível no dia 27 de novembro de 2001/20:34h.
ENTREVISTA com Clemente Padín. Montevidéu: Revista Cafealaturca,
no. 5, 1998. In: http://www.cafealaturca.8m.com/EntrevPADIN.htm,
disponível no dia 21 de janeiro de 2003/10:26h.
ESPINOSA, C. Mail art: new process and new signification. In: http://www.concentric.net/~Lndb/padin/lcpma,
disponível no dia 23 de dezembro de 2002/14:52h.
FRIEDMAN, K. Getting into events. Publicado em Fluxus PerformanceWorkbook.
Trondheim, 1990: El Djarida In: http://www.nutscape.com/fluxus/homepage/n2events.html,
disponível no dia 26 de dezembro de 2002/01:44h.
GÓMEZ, A. Poemas por correo. In:http:// www.merzmail.net/poemas.htm,
disponível dia 28 de dezembro de 2002/16:58h.
HONÓRIA. Honoria’s life as a mail artist.In: In: http://www.newobservations.org/issues/126/honoria/honoria.html,
disponível no dia 28 de dezembro de 2002/20:09h.
HULTBERG, T. Fluxus. 1993 In: http://cadre.sjsu.edu/switch/sound/articles/wendt/ng2.htm,
disponível no dia 26 de dezembro de 2002/01:59h
JUVÉ, M. Mostra de tramesa postal. 1995. In: http://www.merzmail.net/penedes.htm
disponível dia 28 de dezembro de 2002/16:54h.
MIKUERPO, Industrias. Documento de adhesión a la huelga de arte.
In: http://www.vorticeargentina.com.ar/escritos/arte_correo_menu.htm,
disponível no dia 27 de novembro de 2001/20:40h.
MUSICMASTER. Reedeming the post Office. In: http://www.newobservations.org/issues/126/redeeming/redeeming.html,
disponível no dia 28 de dezembro de 2002/20:04h.
NOVA Enciclopédia Ilustrada Folha.v. 1 e 2. São Paulo:
Empresa Folha da Manhã, 1996.
NORDO, G. For fluxus: no title. In:http:// www.nutscape.com/fluxus/homepage/g_nordo.html,
disponível no dia 26 de dezembro de 2002/01:50h.
PADÍN,C. My vacations in freedom. In:http://
www.newobservations.org/issues/126/vacation/vacation.html, disponível
no dia 28 de dezembro de 2002/20:06h.
______. El arte correo em la encrucijada. Montevidéu, 2001.In:
http://www.vorticeargentina.com.ar/escritos/arte_correo_menu.htm,
disponível no dia 27 de novembro de 2001/20:24h.
______. El arte correo a fines de siglo. Montevideu, 1999a. In: http://www.vorticeargentina.com.ar/escritos/arte_correo_menu.htm,
disponível no dia 27 de novembro de 2001/20:22h.
______. El arte correo y el networking, hoy día... Montevideu,
1999b. In: http://www.vorticeargentina.com.ar/escritos/arte_correo_menu.htm,
disponível no dia 27 de novembro de 2001/20:25h.
______. Las tendencias de arte correo que desearia el Sr. Jensen.
Montevideu, 1999c. In: http://www.vorticeargentina.com.ar/escritos/arte_correo_menu.htm,
disponível no dia 27 de novembro de 2001/20:32h.
______.Mail art in Latin America – part one. 1997. In: http://www.concentric.net/~Lndb/padin/lcpma,
disponível no dia 23 de dezembro de 2002/14:34h.
______. Arte postal en Latinoamerica. Malmö, Suécia; revista
Del Sur, no ¾, 1985. In: http://www.vorticeargentina.com.ar/escritos/arte_correo_menu.htm,
disponível no dia 27 de novembro de 2001/20:19 h.
PAWSON, M. Growing up in the post or raised by mailartists. In: http://www.newobservations.org/issues/126/growingup/growingup.html,
disponível no dia 28 de dezembro de 2002/20:02h.
PHILLPOT, C. Correspondance and the collapse of communism. In: http://www.newobservations.org/issues/126/communism/communism.html,
disponível no dia 13 de dezembro de 2002/17:26h.
PICUS-WITTEN, R. About Ray Johnson. 1977. In:http://www.artpool.hu/Ray/RJ_title.html,
disponível no dia 13 de dezembro de 2002/17:17h.
PONTES, H. Xerografía – un recurso postal. In: http://www.merzmail.net/hugo.htm,
disponível dia 28 de dezembro de 2002/16:55h.
TARTARUGO.Notas sobre mail art.Lisboa: revista Bicicleta no.5, 2000.
In: http://www.terra.es/personal3/tartarug/cdc/cdc005.htm,
disponível no dia 28 de dezembro de 2002/19:53h.
VAUTIER, B. What is Fluxus? In: http://www.esf.ch/ben/fluxus.html,
disponível no dia 26 de dezembro de 2002/01:31h.
WELCH, C.(Crackerjak Kid). Debate sobre mail art. 2000. In: In: http://www.vorticeargentina.com.ar/escritos/arte_correo_menu.htm,
disponível no dia 27 de novembro de 2001/20:28h.
WOOD, R. The art in the (E)-mail. In: http://www.newobservations.org/issues/126/artinemail/artinemail.html,
disponível dia 28 de dezembro de 2002/19:48h.
ZABALA, H.; VIGO, E.A. Mail art: new expression form.http:// www.concentric.net/~Lndb/padin/lcpma,
disponível no dia 23 de dezembro de 2002/14:54h.
ZANINI, W. Mail Art in Latin América – part two. In: http://www.concentric.net/~Lndb/padin/lcpma,
disponível no dia 23 de dezembro de 2002/14:47h.
Sites de consulta em arte postal
|
|